Prefeitura aposta em vídeo com IA para divulgar festa e gera polêmica: tecnologia demais, gente de menos?

A cidade de Ulianópolis, no Pará, viralizou nas redes — mas não exatamente como queria. A campanha oficial do Circuito Cultural de Ulianópolis, que celebra a cultura popular da região com quadrilhas, cavalgadas e shows, foi inteiramente criada com inteligência artificial. O vídeo, visualmente impactante, foi elogiado por seu aspecto cinematográfico. Mas também foi duramente criticado. O motivo? Nenhum ser humano participou da produção.

O caso acendeu um debate quente (e necessário): qual é o limite entre inovação e exclusão de profissionais? É possível representar a alma de uma festa popular sem envolver pessoas reais?


IA no comando: o que tinha (e o que faltava)

No papel, parecia uma superprodução: cenas épicas, tomadas aéreas digitais e uma narração de arrepiar — tudo feito por IA. O vídeo divulgava os três dias de festa na Praça dos Três Poderes, com direito a concursos de quadrilha, cavalgada e shows.

Mas a ausência de pessoas reais incomodou. Sem atores, cinegrafistas, figurinistas ou técnicos, a produção foi totalmente sintética. Comentários como “cultura é feita por pessoas” ou “isso precisa estar identificado como feito por IA” dominaram as redes.


Profissionais do audiovisual reagiram

Para quem vive de produção cultural, a mensagem foi dura: a tecnologia pode estar atropelando a cadeia produtiva. Técnicos, diretores, roteiristas e iluminadores se manifestaram com termos como “ofensivo” e “desumanizador”.

Nas palavras de um iluminador, em um post no X:

“Se há algo que não pode ser automatizado, é a alma de uma festa popular.”

Esse sentimento não é só uma resistência à tecnologia — mas sim uma falta de pertencimento. Produções culturais, especialmente as populares, ganham força na participação humana. Tirar isso do processo pode significar tirar o coração da festa.


Do lado de quem produziu

O produtor Renato Lopes Ferreira, responsável pela campanha, compartilhou um “making of” — também feito por IA — com erros de gravação simulados. Segundo ele, o processo levou semanas, com mais de 80 versões testadas.

A ideia surgiu, segundo Renato, da vontade de inovar com poucos recursos. A produção usou o ChatGPT para criar os prompts e o recém-lançado Veo 3, da Google, para gerar as cenas. A edição foi finalizada com Adobe Premiere e After Effects.

Apesar da polêmica, muitos elogiaram o trabalho técnico. Comentários como “gênio”, “inspiração” e “vou fazer pro meu condomínio” mostram que, para parte do público, a inovação valeu o experimento.


Mas afinal, o que é o Veo 3?

O Veo 3 é o novo modelo de inteligência artificial do Google voltado para geração de vídeos. Lançado em maio de 2025, ele cria vídeos em até 4K com narração embutida, transições dinâmicas e iluminação realista. Em segundos, é possível gerar trailers, clipes e até documentários.

Essa tecnologia representa um divisor de águas para agências, produtores independentes e até governos — que veem nela uma alternativa mais rápida e econômica para criar campanhas.


Foi mais barato mesmo?

A influenciadora Gabrielle Tedeschi cravou que o vídeo teria custado R$ 300, contra uma média de R$ 10 mil de uma produção tradicional. Mas será que é isso mesmo?

A versão ultracompleta do Veo 3 custa cerca de R$ 1.200 por mês. Somam-se aí Adobe Premiere e After Effects (que também seriam usados em uma campanha com atores), com mais de R$ 400 mensais. Ou seja, o custo final não é exatamente simbólico. Ainda assim, é inegável que o uso da IA pode baratear produções — principalmente para cidades com orçamentos enxutos.


Nem tanto ao céu, nem tanto à terra: o papel da IA em campanhas culturais

É importante lembrar que a campanha de um evento não é, necessariamente, feita com pessoas em cena. Muitos vídeos promocionais — inclusive de grandes festivais — usam apenas trilhas, imagens de divulgação dos artistas, imagens de arquivo de edições anteriores, textos animados e gráficos.

No caso de Ulianópolis, a IA pode ter permitido criar algo com impacto cinematográfico que seria inviável por limitações de orçamento e prazo. E vale reforçar: o evento ainda é real, com experiências reais, público de verdade, artistas no palco e gente trabalhando nos bastidores.

Ao provocar polêmica, o vídeo atingiu um dos principais objetivos de uma campanha: chamar atenção. Quanto mais atenção, mais chance de transmitir a mensagem e atrair público. E mais público significa um evento mais forte, com maior receita, mais empregos gerados e — quem sabe — mais verba para investir na própria cultura.

Mas há um alerta importante aqui: se a narrativa for mal conduzida, a polêmica pode se voltar contra o próprio evento. Quando parte do público entende que a criação de um vídeo com IA “retira empregos reais”, isso pode gerar rejeição e até boicote.

Por isso, a comunicação do evento precisa estar preparada para explicar o contexto, reforçar o valor do evento como experiência humana e mostrar que a tecnologia não substituiu o evento — apenas foi usada como ferramenta de divulgação. Uma crise de imagem nasce de interpretações mal administradas. E em tempos de viralização, o cuidado com a narrativa é tão importante quanto o vídeo em si.


Conclusão: avanço ou retrocesso?

O caso de Ulianópolis escancara um dilema que vai muito além do Pará e da criação de vídeos: como equilibrar inovação com inclusão? A IA pode ser uma aliada — desde que não substitua o que torna nossas festas únicas: as pessoas.

Como produtores, comunicadores e apaixonados por cultura, temos um desafio pela frente. A tecnologia está na mesa. A pergunta é: vamos usá-la com responsabilidade e criatividade — ou travar um debate raso que não entende nem a campanha, nem o evento?


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